A CIÊNCIA COMO CRENÇA

Carlos Antonio Fragoso Guimarães1
Psicólogo Clínico. Mestrando em Sociologia em Sociologia da UFPB

                O século XX pode, com certeza, ser definido como o século das grandes surpresas e das grandes conquistas, se o tomarmos em relação com o que foi feito em toda a história humana anterior ao nosso tempo: o progresso da ciência e, com ela, o sucesso da tecnologia possibilitaram o desenvolvimento de diversas máquinas maravilhosas usadas na saúde, nas comunicações e nos transportes. Distâncias antes consideradas, senão insuperáveis, altamente onerosas e difíceis de serem transcendidas foram dominadas permitindo um melhor intercâmbio humano, comercial e cultural entre os vários países. As fronteiras do conhecimento foram ampliadas e vários saberes compartilhados, em grande parte devido ao intercâmbio intelectual entre vários centros de pesquisa no mundo, o que possibilitou o surgimento e desenvolvimento de áreas de conhecimento antes inexistentes. O fato de o homem ter dado os primeiros passos na conquista do espaço já não causa tanta comoção, pois tornou-se tão natural os lançamentos de veículos ao espaço que quase já não chamam mais a atenção. Tudo isso, sem falar nos triunfos no controle de várias doenças e desenvolvimento de várias drogas que puderam por sob controle, ao menos e alguns países, a tuberculose e o cólera, dentre inumeráveis outros exemplos, que podem ser expostos para ilustrar a tese de que este nosso século é um século de grandes e extraordinárias conquistas. Nunca se obtivera tantas e tão extraordinárias conquistas técnicas em tão pouco tempo.
                De fato, foi tal o sucesso do explosão tecnológica, impactando a produção econômica mundial - determinando formas de vida e de trabalho e, com elas, condicionando o modo de relacionamento entre as pessoas -, com base na divisão do trabalho e na razão instrumental -, que os preceitos técnicos e científicos acabaram por ser tomados como critérios de validade universal.
                Na verdade, desde o século XVI, com o desenvolvimento da chamada “Revolução Científica” em aliança com o desenvolvimento do Capitalismo - em grande parte incentivado pela moral puritana dos protestantes calvinistas e sua a ênfase no trabalho e reinvestimento de capital, como o demonstrou Max Weber - os valores sociais passaram a ser moldados pelo processo de produção e, com ela, com o desenvolvimento técnico que abria caminho para a Revolução Industrial e todo um novo aspecto de relacionamento humano calcado num modelo racionalista e burocrático, não mais por valores teológicos. Assim, paulatinamente, os pontos científicos básicos mais conhecidos da ciência dos séculos XVI e XVII, essencialmente materialistas e mecanicistas - que, segundo Max Weber, promoveu um contínuo “Desencantamento do Mundo” - , acabaram por extrapolar o âmbito puramente científico, ou seja, as salas de aula das universidades, bibliotecas, oficinas e dos laboratórios de pesquisa, e foram internalizadas na cultura em orientações filosóficas que moldam ou influem na vida, direta ou indiretamente, de praticamente todos os homens e mulheres que habitam este planeta desde então.
                De fato, o processo de incremento técnico da produção causou uma mudança radical da própria estrutura de poder da sociedade. O incentivo da nascente burguesia ao desenvolvimento de máquinas, com vistas à maximização da produção e, com ela, do lucro, estimulou a imaginação e independência dos cientistas, que agora podiam pensar mais livremente sem se ater à canalização intelectual imposta pela Igreja Católica. Os frutos se faziam observar por novas invenções que se traduziam na produção pelo enriquecimento dos burgueses que reinvestiam grande parte de seus lucros não crescimento da própria produção que os faziam ainda mais ricos e poderosos, aos poucos apagando a força da antiga nobreza e os vestígios do feudalismo. Uma nova classe dominante passou a impor seus interesses e sua própria forma de ver o mundo, sempre numa base de troca e acúmulo de bens e poder.
                Todas as grandes civilizações da história sempre se caracterizaram por uma estrutura complexa de aplicação do poder sob a forma de governo, quer em seus aspectos Imperialistas (Roma, China) ou Democráticos (alguns aspectos da Antiga Grécia, Gália e outras regiões da antiga Europa), ou em outras palavras, todas as civilizações tiveram sistemas burocráticos para exercer o poder e controle da sociedade, mas desde o século XVI a civilização ocidental inovou nesta prática por meio da tecnologia e das transformações do trabalho por ela advindas.
                O Renascimento Italiano e a liberdade de pensamento promovida pela Reforma Protestante, enfim, desenvolveram uma nova mentalidade onde era incentivada a individualidade e o racionalismo, especialmente a quem detinha meios para se dedicar a estes ideais, já que a grande maioria da população não dispunha de recursos para tal e, aos poucos, tiveram ou de abandonar seu trabalho artesanal para se empregar nas fazendas e oficinas mecanizadas, ou tentar a vida nas cidades, também como empregados, já que não podiam mais competir com o crescente número de senhores que utilizavam novas técnicas mais eficazes de produção que as tradicionais. Ao mesmo tempo, a máquina era o novo fetiche, o modelo e esperança de uma vida melhor - diziam os arautos da nova ordem econômico e técnica mundial -, e menos dura para todos. Esta era um tipo de profecia, baseada no mito da superação das dificuldades materiais. O triunfo, enfim do homem sobre a natureza. Do mesmo modo, a inteligência criativa e racional deveria a ser, por tudo isso, extremamente valorizada, sem termos de comparação com as “primitivas, sujas” e cada vez mais antiquada formas de trabalho manual, nem se misturar com as superstições enganos do coração, esta bomba de emoções que escurece a clareza da razão, devendo apenas voltar-se ao estudo de tudo o que fosse passível de mensuração e classificação.
                Esta foi a base ideológica que iria dar forma ao Iluminismo do século XVIII e toda a produção intelectual partir de então.
                É de tal ordem o grau de influência da ciência desde então - ou, como querem alguns autores, das ciências - sobre o homem e a tudo que lhe diz respeito, que, até bem há pouco tempo atrás, questionar a positividade e a validade desta influência seria, no mínimo, considerado ingenuidade pois, afinal de contas, a visão de mundo dada pela ciência - especialmente a interpretação de que o universo se comporta como uma grande máquina causalmente compreensível e inteiramente previsível - não só faz sentido como, até onde podemos perceber diante do progresso tecnológico que nos cerca, parece ser realmente a única interpretação sobre a realidade realmente válida.
                Mas existe um grande porém nisso tudo... Algo dentro deste harmonioso modelo mecânico não parece estar andando funcionando muito bem diante dos vários impasses e problemas típicos da modernidade, problemas dificilmente “enquadráveis” ou convincentemente explicáveis dentro de um universo maquinalmente previsível e controlável, onde tudo pode ser explicado, inclusive o comportamento social. Algumas falhas poderiam ser facilmente negligenciadas anteriormente, mas atualmente problemas crônicos como desemprego, estresse, violência urbana e rural numa escala sem precedentes na história, altas taxas de suicídio - direto e indireto - crimes ecológicos, vazio existencial, poluição, alienação, coisficação das pessoas e dos valores, corrupção, corrida armamentista, burocratização das instituições, exploração Norte-Sul, escassez de recursos, dentre muitos outros problemas, têm, por sua vez, levado cada vez mais pessoas a questionarem se esta visão mecanicista de mundo que põe a razão instrumental acima de tudo e que serve de critério para tudo - inclusive para a escolha e legitimação das pessoas que detêm o poder - é, realmente, uma descrição realmente tão boa da realidade quanto parece ou pretende ser e se não pode, também ela, ser um tipo de faca de dois gumes... Será mesmo que somente uma determinada forma de entendimento e ação baseada no racionalismo positivista, ainda que altamente poderosa e útil, é capaz de ser critério e medida para tudo? Não poderá ser ela, como afirma alguns, apenas uma técnica que, no fim das contas, pode apenas abafar ou encobrir “razões mais profundas que a própria razão desconhece”? Afinal, muito do comportamento humano e/ou ao menos grande parte das instituições humanas mais importantes agem ou pretendem agir de acordo com preceitos racionais, “científicos”, mas isso não impede freqüentemente atitudes altamente ilógicas e mesmo prejudiciais, ou, ao contrário, e nem tão raramente, atitudes racionalmente questionáveis, mas que trazem profundos efeitos humanísticos.
                Por atitude científica entendemos, em grande parte, tudo aquilo que pode ser medido, quantificado e passível de ser decomposto em elementos mais simples, como se fossem as pequenas peças de um relógio, de onde, através do estudo de como estas partes primárias se ligam e se relacionam, pode-se ter uma compreensão do funcionamento do conjunto, que é visto, dentro do conceito mecanicista, como a resultante da soma e ação das suas partes componentes. É o modo de seguir este modelo que ainda dá o grau de cientificidade de uma determinada área, ou mesmo de uma instituição, como o governo, ponto básico de sua legitimidade frente à comunidade científica, em particular, e para a sociedade, em geral.
                Mas, como dizíamos, o nosso século pode ser definido como o século das grandes surpresas, e uma das mais interessantes é a de que observações de grande importância tenham surgido no seio da própria ciência, em seu sentido geral, revisando ou mesmo questionando algumas das mais caras idéias, ou “crenças” científicas modernas, especialmente a presunção de universalidade e eficácia dos critérios mecanicistas como as únicas formas de descrição válida da realidade, e o modo como uma visão cientificista tem se transformado em uma ideologia de domínio passado, pela educação, trabalho e cultura, às massas.
                Há ainda uma certa imagem elitista meio cômica que é repassada um pouco pela educação e outra pelos meios comuns de comunicação e até mesmo pelo folclore urbano, que é a afirmação meio amorfa de que há, no meio do saber e da ciência, um conjunto especializado de sábios e iniciados com características quase sobre-humanas. Gente que não tem jeito para as trivialidades do dia a dia e está muito próximo da loucura em sua genialidade. Gente que prefere lidar com números a ler um poema. Este estereótipo do cientista é construído e popularmente divulgado como sátira, mas também deixa claro que diante da ciência moderna, plena de hiper-especializações, o homem comum não passa de um ignorante que, na melhor das hipóteses, demonstra inteligência quando obedece literalmente o que o doutor manda fazer ou deixar de fazer, já que, a priori, ele sabe das coisas sobre si e sobre o mundo mais do que ele mesmo.
                Já não é sem tempo que estamos vendo sinais de um sadio questionamento e inconformismo a todo esse mito fabricado e cristalizado desde o século XVI e que encobre, em parte, uma tática de conformismo intelectual que se tenta impor às pessoas comuns.
                Em especial, nomes como os de Friedrich Nietzsche, Max Weber, Antonio Gramsci, Carl Gustav Jung, Karl Popper, Theodor Adorno, Max Horkheim, Georges Canguilhem, Mircea Eliade, Arthur Koestler, Thomas Kuhn, Michel Foucault, Fritjof Capra, Edgar Morin, Hernani Guimarães Andrade, David Bohm, Gilles Deleuze, Michel Maffesoli, entre outros, são nomes que questionam, de uma forma ou de outra, a validade e a globalidade de uma racionalidade difusa em critérios universais de cientificidade que parece ter o poder de explicar todos os fenômenos naturais e humanos a partir de pressupostos básicos causais gerais, típicos de uma grande espécie de ciência comum em grande parte baseada e/ou adaptada da Física, com foco especial na Mecânica Clássica de Isaac Newton - modelo científico amplamente bem sucedido, cujo domínio vai de fins do século XVII até início do século XX, e que se transformou em critério de cientificidade para quase todas as demais ciências, incluindo as ciências da saúde e as ciências humanas.
                É digno de nota, mais uma vez, expormos que esta crítica de uma ideologia científica, também chamada de “cientismo” ou, “cientificista”2 , vem se dando já de algum tempo, no próprio meio científico, especialmente na escola epistemológica3 européia, em particular na Escola Francesa, juntamente com a tradição filosófica alemã e austríaca. Citemos, à guisa de ilustração, que, para o filósofo da ciência, Georges Canguilhem, uma “ideologia científica” é um discurso de poder que tem, em sua base, uma pretensão de cientificidade, ou seja, de verdade pretensamente demonstrável, e que, partindo desta pretensão, tenta imitar, adaptar ou implicar o uso dos procedimentos válidos da ciência, especialmente na Física e Biologia, para se obter o controle de determinada forma de ver o mundo “... Em uma ideologia científica”, diz Canguilhem, “existe uma ambição explícita de ser ciência por imitação de algum modelo de ciência já construído [e reconhecido]” 4 (destaques meus), tendo a pretensão de ser genericamente explicativa a tal ponto que também possa ser usada para dar conta de eventos sociais, numa visão construída a partir de/e - para racionalizar interesses usualmente menos nobres - sobre a realidade, num mapa conceitual que é tomado ou apresentado, na ideologia cientificista, como sendo a própria realidade.
                Segundo o professor Roberto Machado, analisando o pensamento de Canguilhem, neste sentido, contrariando a função da ciência de permitir uma melhor compreensão racional da realidade, a ideologia científica tem a função política de proteger e defender certos interesses, e cita Canguilhem: “... a ideologia funciona como auto-justificação dos interesses de um tipo de sociedade, a sociedade industrial em conflito, por um lado, com a sociedade tradicional e, por outro, com a reivindicação social. Ideologia, por um lado, anti-teológica; por outro, anti-socialista5 . É muito importante que fique desde já bem claro que esta exposição não pretende ser uma crítica da ciência, mas uma crítica à tendência muito humana de transformar em ideologia construtos e teorias, científicas ou não, geralmente muito bem sucedidas em determinadas áreas do conhecimento, e que são transformados e adaptados para serem usados como um meio de justificação de domínio ou poder político naquilo em que ele é mais forte: o julgar o válido e o inválido, o correto e o incorreto, o certo e o errado e, mais que tudo, o “científico e o não científico”.
                A ciência é uma produção, um discurso que se constrói, não é um objeto já dado, existente desde sempre e descoberto paulatinamente. As várias teorias científicas são tentativas de soluções de problemas e funcionam como mapas, como jogos conceituais que objetivam dar uma compreensibilidade racional e/ou lógica aos vários fenômenos naturais e sociais. A construção do saber científico se faz pelo sucesso relativo - no sentido de sempre poder ser aprimorado - na descrição dos fenômenos, possibilitando um grau razoável de previsão e controle, ou ao menos uma explicação sobre a ocorrência dos mesmos. Este poder de prever e controlar é o que faz o grande fascínio da ciência e lhe dar tanto poder, e não são poucos os que tentam usar deste mister na construção de estranhas “teorias gerais” para dar conta dos fenômenos sociais.
                O que nos interessa aqui é o processo de como uma determinada “ideologia cientificista” tomou vulto. A ciência, em si é, ou deveria ser em essência, trabalho, produção e revisão crítica de si mesma. Cada ciência constrói seu própria campo de estudo, erguendo suas bases metodológicas, de acordo com seu objeto. Como observa Canguilhem, o dizer da ciência não consiste em uma reprodução fiel de alguma verdade transcendente/inerente inscrita desde sempre nas coisas ou no intelecto. “O verdadeiro é o dito construído do próprio dizer científico. A ciência não produz uma verdade; cada ciência produz sua verdade. Não existem critérios universais ou exteriores para julgar da verdade de uma ciência 6 ". Ou, tomando emprestado uma idéia de Einstein, nunca é possível provar realmente uma teoria. O máximo que podemos fazer é mostrar que ela faz sentido.
                De certa forma, a crítica à atual Ideologia científica é, na verdade, uma crítica ao negativo que impede a ciência de passar para um estado mais amplo e complexo de entendimento da realidade, menos mecanicista e mais orgânico, e de integrar aspectos verdadeiramente importantes para o homem. Este assunto, porém, será discutido um pouco mais profundamente adiante. Por hora, ficaremos feliz em espicaçar a curiosidade do leitor lembrando Thomas S. Kuhn, em seu notável livro A Estrutura das Revoluções Científicas, ao demonstrar que a visão convencional que se tem do desenvolvimento da ciência como um processo linear, progressivamente feito como a soma de novas descobertas logicamente concatenadas dentro dos parâmetros de cientificidade aceitos desde que o homem começou a usar a razão, não passa de uma ilusão... Ilusão que é, não obstante, apaixonadamente adotada pela comunidade científica, em especial onde ela está mais intimamente ligada a uma forte estrutura política de âmbito mundial, como a comunidade Inglesa e Norte-Americana, atualmente as mais hegemônicas e influentes, ao menos politicamente.
                Revisando, estamos dizendo que um certo discurso cientificista se tornou um tipo eficaz de ideologia se espalhou por todas as áreas possíveis e imagináveis, extrapolando o propriamente científico e englobando desde a política até as instituições mais tradicionais, aparentemente não positivistas, como as religiões mais institucionalizadas, onde é utilizado para justificar a pseudo supremacia de uma “verdade” sobre outra, etc., ou seja, como toda a Ideologia, o cientificismo também é uma justificação de certo discurso que tem por trás de si o exercício de um certo controle, ou seja, de aplicação de um determinado tipo de poder. O importante a se destacar como sintoma geral é a atual busca pelo parecer ser científico, pois é este parecer ser, quando não se pode ter a certeza de o ser realmente, que dará uma atestado, ou ao menos uma áurea ou presunção de autoridade ao discurso cientificista adotado para “encobrir” razões e interesses muitas vezes não tão nobres para a formulação de um determinado discurso. Michel Foucault, em especial, é um mestre em demonstrar as “baixas” e pouco nobres origens de certos saberes, como, por exemplo, em seus estudos sobre as origens da psiquiatria, da medicina e do hospital moderno 7 .
                A percepção da problemática da Ideologia Científica, ou, o que é mesmo, do Cientificismo, tem permitido uma espécie de avaliação crítica geral do papel da ciência na situação social conflituosa em que nos encontramos atualmente, muito embora a discussão necessária sobre a ética nas ciências e sobre a filosofia subjacente à cultura cientificista atual ainda seja objeto de estudo de uns poucos “iniciados” sempre sob vigilância ou ameaça da supressão ou do escárnio dos defensores do paradigma vigente, muito poderosos, já que são quem financiam grande parte das pesquisas científicas, freqüentemente ligadas à grandes empresas ou instituições industriais e militares. No Brasil, embora a maior parte das pesquisas científicas ainda sejam feitas por instituições públicas, em especial as Universidades Federais, os critérios de validade são praticamente os mesmos dos do Primeiro Mundo. Portanto, são estas pessoas e instituições que detêm o poder de dizer o que é ou não válido dentro de seus enfoques pragmáticos, materialistas e mecanicistas, enfoque estes que funcionam como os supremos avalistas do que é considerado certo ou errado.
                Porém, a questão da Ideologia Científica, ou Cientificismo, apesar de seu peso e complexidade, é apenas um aspecto da questão. Ora, se pressupostos advindos do discurso científico são tão aceitos na sociedade ocidental ao ponto de se formularem sistemas explicativos de diversos naipes com pretensão de totalidade dentro de uma ideologia supostamente científica, isso se dá porque o Zeitgeist, ou seja, o espírito intelectual de nossa época o permite e, mesmo, o incentiva. É a crença compartilhada de que a ciência tem o poder de explicar a realidade tal qual ela é que parece encobrir o fazer científico numa aura quase mística, onde o cientista toma, hoje, o papel que ontem foi do sacerdote. E não é exagero afirmar a vinculação mítica e mesmo mística da ciência se nos lembrarmos que o grande teórico da Escola Positivista francesa, Auguste Comte, realmente pretendia criar um nova religião, mesmo que secular, calcada na ciência e na “deusa” razão. Uma nova religião da humanidade, que deveria substituir o que ele considerava resquício de uma forma primitiva do pensar, que, para ele, era a religiosidade.
                Para Comte, como para seus discípulos positivistas, a Sociedade Industrial, baseada em princípios científicos, constituia o grau máximo de desenvolvimento das sociedades. Nós todos sabemos da enorme influência do positivismo na história do Brasil. O próprio lema de nossa Bandeira, Ordem e Progresso, é um lema positivista, e Benjamim Constant, após arquitetar e promover a queda do Império, também incentivou a divulgação dos ideais de Comte, a começar pela construção de um Templo Positivista no Rio de Janeiro, se encarregando de que as idéias desta escola figurassem nos currículos tanto de instituições militares quanto das universidades e demais instituições de ensino do país. Não é à-toa que o cientista e o especialista gozam de tamanho prestígio na sociedade ocidental. Na divisão social do trabalho, eles é que são os responsáveis pelo pensar, desobrigando-nos sequer da ousadia de tentar fazê-lo.
                Historicamente, foi despendido muito esforço no deslocamento de autoridade da área teológica para a científica, em prol da liberdade de consciência e do progresso da civilização. E hoje, em paralelo, o próprio discurso cientificista também possui seus próprios sacerdotes e amarra, em diversas teorias, as consciências tanto quanto o faziam os doutores religiosos de outrora8 , enquanto novos problemas típicos da civilização agridem a saúde de todo o planeta. O que era um vento de liberdade, ao se institucionalizar, virou um ar viciado.

II

                Em ciência os modelos, crenças e métodos de pesquisa aceitos por uma dada comunidade científica como sendo válidos são compartilhados tanto através da educação básica quanto do treinamento profissional. Mas isto, ao contrário do que possa parecer, é algo bom, evidentemente até certo ponto. Eles são úteis e necessários para se dar uma identidade profissional que diferencie uma dada ciência, como, por exemplo, a Física ou a Psicologia, o objeto básico de estudo, especificando-o; fornecer critérios de comunicação, ou seja, uma linguagem em comum; permite o estabelecimento de um método de trabalho e técnicas de pesquisa ordinariamente bem sucedidas. Elas, enfim, definem as características que nos permitem diferenciar uma disciplina científica, mas também constituem a base mais sutil de uma ideologia que, como toda ideologia, tem de partir do reconhecimento de um determinado problema, oferecendo, através de pesquisas e elaborações de teorias, soluções. Caso estas sejam bem sucedidas, geralmente as pessoas que as usam, até por uma questão de vaidade e orgulho profissional, tendem a expandir seu alcance de explicação, extrapolando a área específica em que foi utilizada, universalizando teorias ou visões de mundo para bem além do objeto original de estudo, com a pretensão de englobar quase toda a gama fenomenológica que constitui a realidade dentro dos critérios de validade de seus quadros teóricos familiares. Um conjunto de valores implícitos e compartilhados pela comunidade científica constitui aquilo que Thomas Kuhn denomina de paradigma.
                Atualmente, o paradigma dominante, ou seja, a visão subjacente mais aceita de como o universo funciona, em essência, ainda é a mesma de há mais de duzentos anos, a mesma noção básica compartilhada sobre a natureza do mundo, e que surgiu a partir da separação entre Ciência e Religião, ajudado por vários desenvolvimentos técnicos (como o de polimento de lentes que permitiu o desenvolvimento do microscópio e do telescópio; a criação de novos instrumentos de medição, como o barômetro, ou o aperfeiçoamento de máquinas já existentes, como balanças mais precisas, etc.) e que foi financiado e divulgado pelos primeiros capitalistas, sedentos do domínio e controle da natureza, exploração dos recursos naturais, melhoria do processo de comercialização e intercâmbio de mercadorias, cálculo e registro das operações financeiras e, principalmente, de um desenvolvimento filosófico que retirasse ou amenizasse as barreiras éticas sobre operações de lucro, como o empréstimo de dinheiro a juros, ou a exploração de recursos naturais.
                Para isso, foi apoiado uma nova abordagem de filosofia natural conhecida como empirismo, o que permitiu um distanciamento teórico entre o homem e uma natureza que cada vez mais passou a ser entendida em analogia com as máquinas criadas pelo próprio homem.
                A noção de objetividade e de análise vem exatamente disto, em especial com os critérios de um método que se calca, principalmente, na visão de mundo que é própria da Física Clássica de Isaac Newton, que foi quem deu um formato matemático preciso à filosofia mecanicista de René Descartes, que sonhava em demonstrar ser o mundo uma grande máquina determinística, passível de ser compreendida pela análise de suas partes constituintes, como um grande relógio que podia ser entendido usando-se o método de abri-lo e estudar separadamente cada peça, cada engrenagem que o compõe. Newton conseguiu realizar em grande parte o sonho de Descartes elaborando sua Mecânica, que se impôs como modelo a ser seguido por todas as ciências.
                Tudo ia bem, e o modelo mecanicista parecia ser realmente a descrição única e precisa da realidade até que uma série de observações começaram a ficar sem um encaixe explicativo convincente dentro dos parâmetros newtonianos, a começar pelos trabalhos de Faraday e Maxwell, com a eletricidade e o eletromagnetismo. A partir destes, vem constatando que o quadro mecanicista da Física Clássica não é tão perfeito assim e nem parecia ter o alcance explicativo que se imaginava9 . A coisa ficou ainda mais dramática com os trabalhos de Einstein sobre a Teoria da Relatividade, e os dos teóricos da Física Quântica, especialmente com Werner Heisenberg, Niels Bohr, Erwin Schrödinger e Wolfgang Pauli, que desenvolveram um trabalho revolucionário nas primeiras décadas deste século, o que causou um forte abalo de base paradigmática no campo da Física. A grande revolução conceitual resultante desta transformação paradigmática, porém, só recentemente é que veio a ser passada ao grande público leigo, embora obtendo uma repercussão mais positiva do que se poderia imaginar, impulsionando novas perspectivas filosóficas e mesmo políticas.
                É interessante notar que nas chamadas Ciências Humanas (Psicologia, Sociologia, Filosofia, em menor grau, a Economia, etc.), que, num primeiro momento tomaram as ciências naturais e biológicas (Física, Anatomia e Química, especialmente) como modelos perfeitos a serem seguidos - o que lhes foi muito útil em dado momento, para se firmarem como ciências válidas de importância comparável à Física -, passam, atualmente - pelo seu próprio processo de maturação (bem mais lento e confuso, é certo, que os das ciências naturais, em grande parte por usarem um linguajar baseado nestas ciências) -, timidamente, a questionar a base desse modelo mecanicista, paralelamente ou a partir mesmo das grandes transformações epistemológicas por que passaram as mesmas ciências que lhes serviram como modelo.
                O segundo tema básico deste trabalho diz respeito, mais especificamente, ao impacto que estas novas perspectivas, e as descobertas de vanguarda que lhe estão associadas, na Ciência, em especial na Biologia, Fisiologia, Neuroanatomia e Psicologia, juntamente com as da Filosofia das Ciências, têm exercido em nossa compreensão acerca de nosso entendimento de homem e de mundo. As implicações destas mudanças se fazem importantes não apenas numa transformação de visão de mundo mas, sobretudo, ao resultarem numa transformação radical do atual comportamento do homem, anti-ecológico em essência, ao compreender como age e é afetado pelo modelo metafísico que se adota para por ordem a mundo em que se vive e ao que observa.
                Uma ética tácita, baseada na compreensão dos valores, vêm mudando drasticamente a posição do homem de saber diante de sua responsabilidade por suas pesquisas e descobertas, e isto tem se refletido tanto no desenvolvimento da Medicina, Psicologia, Psiquiatria e de várias abordagens e técnicas de psicoterapia, quanto no papel dos cientistas nas chamadas “ciências pesadas”, como Física, Química, Engenharia Genética e outras. Estes últimos, gozando de grande respeito cultural, são geralmente financiados em suas pesquisas por instituições com profundo interesse econômico e corporativista e pouco ou nenhum interesse humano/humanista nos seus resultados práticos. Nesse sentido, seguindo o exemplo de autores como Fritjof Capra, o estudo da atual revolução de modelos, métodos, valores e técnicas científicas (paradigmas), será uma introdução ao estudo da revolução conceptual qualitativa acerca do grau de consciência responsável e co-dependente que necessitamos com urgência e que deve se refletir numa nova ética ecológica que tome o impacto global, o relacional e o coletivo como fundamento de ação.
                Em resumo, este trabalho tem como principal objetivo mostrar como está em andamento, ocorrendo de forma sutil, às vezes um pouco mais explicitamente, um mudança radical das concepções mais fundamentais da ciência sobre os aspectos da interação sujeito/objeto, realidade teórica e realidade complexa e sobre a natureza da consciência humana. Mas, se ele não chegar - e não realmente não chega - a se aprofundar bastante nestas análises, pelo menos terá o mérito de espicaçar a curiosidade e o senso crítico do leitor ou, quem sabe, ter tocado em algo já percebido mas pouco pensado anteriormente, estimulando a consulta aos livros sugeridos na bibliografia e em outras fontes que tragam um maior e mais competente aprofundamento no estudo destes temas.

 

Bibliografia

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Weil, P. - Mística e Ciência; Petrópolis, Vozes, 1991.

 


1 Psicólogo Clínico. Mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPB
2 Adoto o termo “cientificista” para destacar a utilização de roupagens científicas fora do âmbito mesmo da ciência, como processo de racionalização de atos cujas motivações são bem outras que o de uma reflexão propriamente neutra e racional.
3 A epistemologia é o ramo da filosofia que reflete sobre a produção do conhecimento na ciência.
4 C.F. Machado, 1982, p. 41, nota 3
5 C.F. Ibid., p. 41
6 “Le rôle de l’épistemologie dans l’historiographie scientifique conteporaine”, In Idéologie et Rationalité, p. 21
7 Cf. As seguintes obras de Foucault: “História da Loucura” e “Microfísica do Poder”.
8 Cf. Foucault, 1982
9 Cf. os comentários de Einstein e Infield em”A Evolução da Física” e de Capra, em “O Ponto de Mutação”.